“Ele É que Deveria Ter Medo de um Dia me Encontrar” By Roger Franchini

Posted On 27/05/2014

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“Ele É que Deveria Ter Medo de um Dia me Encontrar” By Roger Franchini; Fotos por Felipe Larozza mai 26 2014 91 Share on Tumblr submit Print olá Roger Veja o que vc pode fazer com isso… Era assim mesmo. Começava com letra minúscula e terminava em reticências que sugeriam problemas. Em agosto de 2009 recebi o e-mail acima do colega Robson – policial militar de Goiás – encaminhando uma outra mensagem que ele havia recebido através de nosso site, o Blogopol, comunidade de blogs mantidos por vários policiais do Brasil. A tal mensagem era um gigantesco texto sem parágrafos e com pontuação precária, quase aleatória, como alguém que dispara a falar sem interrupções (pensei ser um daqueles e-mails do tipo enlarge your penis, uma oração de mãe ou outro tipo de spam. Mas, poxa, tinha sido encaminhado pelo Robson, homem probo, de boa família, maçom, diretor do Lions Club e querido no Rotary, um cristão respeitado e que jamais se daria ao trabalho de repassar besteiras da internet. O texto merecia atenção). Quando bati os olhos, vi que uma grande merda estava prestes a transbordar na Secretaria de Segurança Pública paulista, fruto de uma puta cagada cometida por delegados da corregedoria. Assinada por uma mulher chamada Vanessa Lopes, era uma confissão que começava assim: “Boa noite e obrigada por ler meu e-mail… Tentarei resumir ao máximo para não distorcer os fatos… Sou escrivã de policia 3° classe, exercendo tal função há mais de sete anos, seis deles no 25° Distrito Policial em Parelheiros, periferia de São Paulo (…)” Bem, vou resumir mais ainda: Vanessa se dizia escrivã de polícia no 25DP de São Paulo, Parelheiros, periferia da periferia. Em 15/06/2009 um homem – até então apenas um investigado de determinado inquérito – a procurou oferecendo vantagens para lhe ajudar a sair daquela enrascada. Mas ela negou a oferta. Eis que, o cara, sorrateiramente, deixou um bolo de notas sobre sua mesa sem que ela percebesse, e depois fugiu da delegacia. A escrivã, continuava a mensagem, desconfiada do anormal episódio, imediatamente pegou as notas e se dirigiu à sala de seu delegado para informa-lo do estranho ocorrido. Porém, no corredor do DP, antes de chegar à sala do chefe, começou sua desgraça. Tudo não passava de um flagrante montado pela corregedoria. Nas palavras dela: “(…) enquando [sic] estava no corredor, me dirigindo a sala do delegado, aproximadamente oito homens entraram com armas em punho, com muita gritaria, me mandavam entregar o dinheiro, apavorada, em uma reação humana, guardei o dinheiro na minha calça. Me empurraram até minha sala e somente neste momento se identificaram como policiais da corregedoria.” Até aí, a rotina de um inferno bem conhecido. Triste, sem dúvida, mas fazia parte do universo da tiragem. A história do polícia pego pela Corregedoria, contada por ele mesmo. O tal sujeito investigado já teria conversado previamente com a Corregedoria, a qual havia marcado as cédulas. Bastava, portanto, o cara entregar o dinheiro à escrivã, e então os investigadores cairiam para dentro do DP. Flagrariam a policial com o dinheiro sujo, prova inequívoca de que exigira para si vantagem indevida do indefeso contribuinte. Tudo seria muito simples, como sempre está escrito no histórico do B.O. Mas, para a infelicidade dos corregedores, a diligência não saiu como planejado. Como o delegado da Corregedoria tinha certeza de que o dinheiro estava em algum recôndito de Vanessa, a autoridade não titubeou. Mandou que ela tirasse a roupa ali mesmo, na sala, diante de oito policiais homens. Oito homens. Homens. “(…) Ele disse que iria me revistar, então, devido ao meu pudor, sou uma mulher casada e todas minhas consultas ginecologicas são feitas com mulheres, pois tenho muita vergonha, de imediato solicitei que fosse revistada por uma policial feminina. O delegado, buscou uma policial militar feminina, a qual muito respeitosamente realizou a revista e nada localizou. O Dr. Eduardo então mandou que eu me despisse por inteira, passei a ficar indignada pois jamais tiraria minhas vestes na frente de oito homens desconhecidos e cheguei a solicitar de joelhos que fosse acionada uma delegada, investigadora ou escriva da corregedoria, visto que propus retirar a roupa somente na frente da policial feminina, respondendo o delegado que não confiava na policial e dizendo textualente que só sairia dali ao me ver “pelada”, Cabe salientar que tudo estava sendo filmado por um investigador. (…) , o Dr. Eduardo muito irritado aos berros e entre ameaças passou a torcer meus braços para tras (…). Em seguida, vendo que jamais retiraria minhas vestes na frente daqueles homens, ainda mais filmando, ele me algemou com as mãos para tras, me jogou no chão e sequer abriu o botão da minha calça, puxou-a com tal violencia que a rasgou,encontrando o que queria, ou seja, o dinheiro caiu no chão, sem necessidade alguma, este “cumpridor” da lei abaixou minha calcinha, tendo eu percebido um sorriso no rosto dele. Fiquei ali no chão, com as pernas abertas, sem roupa, com minha intimidade exposta a todos aqueles homens, me senti violentada, tal como uma vitima de estupro. Tive que passar pela humilhação ainda de suplicar que o delegado subisse minha calcinha e minha calça, pois algemada não conseguia.” Cara! Eu escrevo romances policiais há algum tempo – e aqueles que conhecem a polícia somente do lado de fora do balcão, usando lente de zoom para não chegar perto, vivem me dizendo que finjo ou minto tudo que escrevo – mas esse QRU superou até mesmo minha capacidade de criar tramas. Era inverossímil. Uma história cheia de furos, típica de um roteirista preguiçoso. Inaceitável que um homem formado em direito, aprovado em concurso para delegado e convidado a trabalhar na corregedoria da maior polícia investigativa da América Latina tenha cometido tamanha incúria, coisa de calça branca, um recruta no primeiro plantão. O mais incrível: tudo teria sido registrado em vídeo, para fechar com glória a equivocada ocorrência. Merda por merda, fechei o gmail, esqueci da moça e fui tomar conta da minha vida, que à época estava à beira do divórcio. Não demorou muito, nova surpresa; o vídeo com as imagens mostrando a escrivã tendo as roupas arrancadas vazou na internet: E o resto vocês conhecem. A despeito do escândalo, a escrivã foi demitida, o governo do Estado demonstrou o protocolar desconforto com a atuação de seus homens (e tudo seria investigado em um rigoroso inquérito blá blá blázzzZZZzzzz…). A mídia deu seus gritos histéricos, portais aumentaram o pagerank com a notícia, muitos internautas consideraram legítimo o crime cometido pelo delegado para desvendar o crime cometido pela escrivã. O resultado: mesmo demitida pela corregedoria, em janeiro deste ano Vanessa ganhou, em primeira instância, uma ação indenizatória contra o Estado de São Paulo, no valor de R$30.000,00 a título de danos morais. O principal: no último dia 15/05/14 foi publicado no Diário Oficial a sentença judicial do caso: Vanessa foi absolvida do crime do qual era acusada pela corregedoria – concussão – por absoluta falta de provas. De acordo com o juiz, “a violação ao direito da mulher investigada, garantida pela legislação processual penal, é flagrante. Se sequer o homem pode tocar o corpo da mulher para a realização da busca, conquanto mais desnudá-la. Se foram apreendidas ou não as cédulas previamente xerocopiadas na posse da ré é fato a ser considerado como inexistente nos autos pela notória nulidade da prova”. Ou seja, pouco importa se a Escrivã tenha ou não exigido o dinheiro, se estava ou não com as cédulas consigo. Desde 1988, a sociedade brasileira fez um pacto: todo e qualquer tipo de prova colhida de forma criminosa é nula. Interceptação telefônica ilegal, invasão de residência sem mandados, confissão sob tortura, pau-de-arara, violação de correspondência… Não importa sua natureza. O ordenamento jurídico a ignora solenemente, e tudo o que é produzido a partir de seu resultado passa a ser inexistente. Afinal, se a regra vale para o banqueiro Daniel Dantas, teoricamente, também vale para qualquer um, desde a escrivã até aos presos comuns do 25DP de Parelheiros. E agora, após tantos anos, conseguimos nos encontrar para uma conversa em sua casa (na verdade, de sua avó), um simpático e simples sobrado em uma rua estreita da Vila Sônia, Zona Sul da cidade. A aparência de Vanessa chama a atenção: alta, loira, cabelos bem cuidados, nem sinal daquela mulher desesperada, recém-desencarcerada que redigiu o primeiro e-mail, pedindo socorro de um fôlego só. Sua voz é segura e os gestos comedidos. Enquanto nos atendia, ela cuidava do filho de um ano e oito meses com carinho, chamando-o apenas de “Neném”. Um menino sorridente, cuja felicidade é de fazer inveja. Vanessa veio de uma família de policiais civis, então, perguntei se o destino do moleque também seria o mesmo. “Não” – respondeu contundente. “Ele vai ser PM! Não quero que meu filho sofra.” Eu torço para que ele continue alegre, com aquele grande sorriso de um dentinho só. VICE: Quando você entrou na polícia? Vanessa Lopes: Meu concurso foi de 2001, eu estava com 19 anos. Muito nova. Sim, muito nova. Qual foi a primeira delegacia onde você trabalhou? Eu fui para o 77 DP, Santa Cecília, depois para o 4ºDP, próximo da rua Augusta. Como você foi parar no 25? Tive algumas divergências com minha chefe no 4ºDP, e aí ela escolheu o distrito mais distante… Foi um bonde! Foi um bonde. Eu tomei um bonde para o 25, quer dizer, do 77 para o 4º DP não chegou a ser um bonde. Ficou magoada com essa transferência compulsória? Muito magoada. Mas na primeira semana trabalhando lá eu já me apaixonei. Ali, na periferia, é um lugar maravilhoso para qualquer pessoa trabalhar. Não tenho do que reclamar de Parelheiros. Sempre fez plantão em distrito? Sempre. Eu nunca quis ir para departamento. Minha paixão é plantão. Ave Maria. Sério! Eu amava plantão. Daqueles bem zicados, com três, quatro flagrantes numa noite… Estranho, porque os plantões de distritos são considerados pelos policiais como a vala comum da instituição, um castigo, o lugar de quem não tem padrinhos para levá-los a um departamento. É, mas nos plantões é onde se consegue fazer polícia de verdade. O que é ser polícia de verdade? Atender a população… Ter mais contato com as pessoas. Essa relação da polícia com o público às vezes não estressava você? Não. O que me estressava mais era o contato com os colegas. Você é a primeira pessoa que conheço que diz gostar de puxar plantão. Adoro. Tanto que eu também puxava plantão para alguns colegas. Eles me pagavam para isso. Eu fazia o trabalho do cartório, também. Quando tinha correição na investigação, quem preparava tudo para os tiras era eu, e também ganhava por isso. Era meu bico. Já trabalhou na chefia? Fiz plantão por metade da minha carreira. A outra metade eu fui da chefia. Como estava aquela manhã em que você foi revistada? Um dia normal. Eu estava trabalhando normalmente, a corregedoria chegou logo após o almoço. Cheguei a ver no corredor aproximadamente oito pessoas, já correndo, com as armas apontadas para mim, gritando que eu estava presa. E os outros policiais do distrito, quando viram a correria, fizeram alguma coisa? Ficaram tão assustados quanto eu. Ninguém sabia o que estava acontecendo. A Corregedoria já tinha ido ao 25 DP antes em operações semelhantes? Eu soube posteriormente que eles já haviam ido lá outras duas vezes para tentar fazer um flagrante em mim. Que horas você foi para a cadeia? No dia seguinte, de manhã, um pouquinho antes do almoço. Para o PPC [o presídio da polícia civil]? Não. Na época o setor feminino ficava no 33 DP. Vila Mangalô. Você ficou em uma cela com mais quantas pessoas? Mais uma menina. Uma carcereira. Ela disse por que estava presa? Acho que era roubo. Contei minha história para todas as meninas e elas se comoveram bastante, mas até então não tinha sido veiculado pela mídia, ninguém sabia a gravidade do caso, porque só falando minha história parecia surreal. Quanto tempo você ficou presa? Um mês. Nos primeiros dias eu já tentei me matar. Todas as internas tomavam remédios para dormir, aí arrecadei muitos deles, de vários tipos, e tomei uma dose bastante excessiva. Fui socorrida no Hospital de Perus. E depois, quando voltei, já estava um pouco mais conformada com a situação. Como esses remédios entravam na cadeia? Com um médico. Nós vamos consultar com um médico no PPC e ele dá as receitas. Não dá para aguentar a cadeia sem remédio. O vídeo não foi anexado aos autos do seu processo administrativo, não é? A história desse vídeo é meio complicada porque ele estava indisponível para os advogados. Você tinha visto ele? Não. Ninguém conseguia ver o vídeo porque a Corregedoria estava, teoricamente, escondendo. Nós só conseguimos acesso depois que ele caiu na internet e na TV. O vídeo vazou antes ou depois de você ter sido exonerada? Depois. Tem ideia de como esse vídeo foi parar nas mãos dos jornalistas? Bem, ele apareceu primeiro no YouTube. E depois que cai lá é a mesma coisa que você abrir um travesseiro de penas no alto de um prédio. Você nunca mais vai conseguir juntar todas. Mas você já sabia da existência dele, antes mesmo de ir para o YouTube? Sabia porque sempre que eu era transferida, ou precisava sair da carceragem para ir ao médico, os policiais que faziam minha escolta diziam que já me conheciam porque tinham visto o vídeo. Diziam em tom jocoso? Não. Se diziam revoltados. Aliás, no mesmo dia em que eu fui presa e levada até o IML para o corpo de delito, os policiais dessa escolta me disseram que já tinham visto o vídeo. Em apenas poucas horas depois da gravação ele já corria pela polícia. Você era casada com um PM nessa época, não era? Sim. Nosso mundo desabou, culminando com a separação depois de algum tempo. E o que você tem feito para ganhar a vida desde que foi exonerada? Procurei empregos, mas com esse meu tipo de problema, dificilmente vou conseguir alguma coisa. Mas quando você se apresenta para a vaga a empresa sabe quem é você? Ligam você ao vídeo? No principio, não. Meu currículo é interessante, a entrevista é interessante, mas depois, quando vêm as pesquisas do RH, acabam todas as possibilidades. Quando meu neném nasceu, o pai dele não me ajudava, foi aí que consegui um emprego, mas acabei tendo que sair depois. E hoje em dia, como você se banca? Moro com minha avó e ela me ajuda. Depois disso tudo, você teve contato com os delegados que te revistaram? Vi o doutor Eduardo no fórum, em uma das audiências, mas não conversamos, e na corregedoria também, no procedimento que foi instaurado contra ele. O que aconteceu com ele? Tomou apenas uma suspensão. No vídeo, é possível ver que, no momento, também estavam presentes algumas policiais femininas. Como elas se comportaram diante do que aconteceu com você? A policial militar ficou extremamente constrangida. Ela me procurou depois para pedir desculpas, mas ela nunca teve culpa de nada, coitada. Já a GCM estava feliz, porque tínhamos algumas divergências. Mesmo assim, senti certo desconforto por parte delas, por causa das ordens que recebiam do delegado, um cara que não era chefe delas. Estavam ali para fazer um favor. Seu delegado titular da época estava por perto na ocasião. Ele interviu de alguma forma na diligência da Corregedoria? Sim, ele chegou a bater boca com o doutor Eduardo. Achei até que iria ter algo mais grave entre eles. Mas o doutor Eduardo colocou todos os funcionários do 25 para fora da minha sala e fechou com chave. Vocês ficaram trancados na sala? Sim. Eu, ele, outro delegado e mais dois investigadores. Durante seu processo administrativo você chegou a pedir ajuda para alguma ONG ou instituição? Diversas. Procurei políticos, ONGs de direitos humanos, de defesa da mulher, muitas mesmo. E que respostas você ouvia? O vídeo ainda não tinha aparecido e por isso ninguém acreditava em mim. Na cabeça dessas pessoas eu estava inventado a história para me livrar de algo. Ninguém sabia o que eu tinha passado ou sofrido. Quanto tempo demorou para você superar tudo isso? Nunca mais. Eu sonho com aquilo até hoje. Minha liberdade nunca mais será a mesma. Talvez eu dê mais valor, mas o trauma fica, né? Vocês já ingressaram com a ação de reintegração? Não. Como a sentença é recente, é melhor esperar mais um pouquinho. Você quer voltar para a polícia? Quero. Muito. Você guarda rancor de alguém na polícia? Principalmente do doutor Eduardo. E pode ter certeza de que ele será a primeira pessoa de quem irei atrás para mostrar minha funcional. Uma vez de volta à polícia, você não tem receio de trombar com as pessoas que te fizeram mal? Não. É o contrário. Ele é que deveria ter medo de um dia me encontrar. Nós sabemos que a ocupação das funções na polícia depende exclusivamente do cenário político e da qualidade de seu padrinho. Por isso, ninguém fica para sempre em um departamento. Um dia você é policial da corregedoria e, no outro, muda o secretário, o delegado geral, um dia, quem sabe, o governador e, do nada, você pode cair… Foi isso o que aconteceu com o ele [o delegado]. Eles caíram da corró e foram jogados para lá e para cá dentro da polícia porque ninguém os quis. Onde ele está hoje? No 30 DP. Plantonista? Sim. A mesma função que você fazia quando ele te prendeu. É. As coisas giram muito na polícia. Nunca pensou em começar outra carreira? Batalhei muito para isso. Não é justo que eu fique assim por causa de um canalha. Siga o Roger Franchini no Twitter – @franchini Veja mais fotos e vídeos do Felipe Larozza aqui.

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