Existe terror em SP: o dia em que PMs atiraram ante aplausos e pedidos de não violência

Posted On 14/06/2013

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Janaina Garcia
Do UOL, em São Paulo

14/06/201309h00

  • Gustavo Basso/UOL

    Manifestante sozinho observa policiais atirando bombas e balas de borracha contra as pessoas no cruzamento das ruas da Consolação e Caio Prado, no centro de São PauloManifestante sozinho observa policiais atirando bombas e balas de borracha contra as pessoas no cruzamento das ruas da Consolação e Caio Prado, no centro de São Paulo

Escrevo sobre aquela que seria uma manifestação contra o reajuste nas tarifas do transporte coletivo em São Paulo. O cheiro ainda forte de vinagre no corpo, a náusea e a ardência nos olhos e as lembranças de um cenário de guerra do qual eu pensava que estávamos livres no Brasil, no entanto, desvirtuaram naturalmente o propósito inicial do texto.

Acompanhei a movimentação dos manifestantes desde a aglomeração em frente ao Theatro Municipal, perto das 16h30. Ali mesmo a tensão já se anunciava com a detenção de um grupo de 40 pessoas, antes do protesto. Vi o momento em que um jovem indagou o porquê da ação, já na praça do Patriarca, e foi arrastado por três policiais militares para junto dos detidos.

POLICIAIS ATIRAM CONTRA PESSOAS PEDINDO FIM DA VIOLÊNCIA

A passeata pelas ruas do centro, até a rua da Consolação, teve em muitos momentos clima quase de festa, fosse por parte dos ativistas, que improvisaram uma bateria –e vários deles estavam com flores às mãos –, fosse pela recepção de cidadãos em portarias de prédios e estabelecimentos comerciais que recebiam panfletos do movimento.

Ouvi um homem de uns 50 e poucos anos gritar “orgulho, meu” à massa. Massa que, aliás, contou com não apenas jovens, mas idosos, famílias, gente recém-saída do trabalho.

CENAS DO PROTESTO EM SP

Elio Gaspari: Os distúrbios começaram pela ação da polícia, mais precisamente por um grupo de uns 20 homens da Tropa de Choque, que, a olho nu, chegou com esse propósito Leia mais
Existe terror em SP: “Fosse você manifestante, transeunte ou jornalista a trabalho, não havia saída pela via nem pelas transversais, todas cercadas pelo Choque. A cada arremesso de bomba, alguém pedia por vinagre ou o oferecia”. Leia mais
Ataque à imprensa: Diversos jornalistas foram feridos e presos pela polícia durante a cobertura do ato. Vídeo mostra que um grupo se identifica e pede para que não seja atingido, mas os policiais ignoram e disparam tiros de borracha e bombas de gás lacrimogênio. Assista
Vídeo gravado durante os protestos em São Paulo mostra um policial quebrando, com socos, um dos vidros do próprio carro da polícia. Assista

A transformação da ‘micareta’ veio na subida da Consolação, onde a passeata foi recebida por bombas de gás e tiros. Na correria rumo à praça Roosevelt, era explícito o temor de que a PM, que já começava a cercar o local, a invadisse com as armas.

Na dispersão, uma boa parte subiu pela rua Augusta. Ali, as primeiras barricadas foram montadas com sacos de lixo. Olhávamos da rua Paranaguá, rumo à praça, e a Tropa de Choque se posicionava prestes a subir. Do lado de cima da Augusta, a cavalaria esperava quem quisesse chegar à Paulista.

Idosa ‘livra’ grupo de detidos na Augusta; grávida passa mal

Vi o momento em que, ainda na Augusta, próximo à rua Peixoto Gomide, pelo menos 50 manifestantes estavam detidos, com as mãos à cabeça, sentados na calçada. Eu, outra repórter e porteiros de um prédio residencial tentamos conter uma idosa que insistia em passar –”eu moro aqui do lado, preciso passar”, dizia, com o carrinho de compras –, mas em vão. Na subida dela, os PMs se distraíram, e os detidos correram. Ao menos três bombas rolaram junto com eles.

Já na Paulista, o clima era o pior possível. Uma grávida parada perto da estação de metrô Consolação, trancada, chorava e dizia que estava passando mal. Uma repórter pediu a um PM que parara o carro para checar o que havia que a levasse. “E daí que você é da imprensa?”, ele devolveu, deixando a grávida sentada na calçada. Após insistência de outras pessoas, o carro transportou a mulher.

Dali, a sequência de cenas explícitas de avanço dos policiais sobre quem quer que fosse –”manifestante baderneiro” ou não –seria menos pontual. O avanço da cavalaria com homens do Choque munidos de escudo foi ilustrado por tiros e muitas bombas.

Bombas são lançadas em porta de banco; vinagre é lançado em solidariedade

Junto a um grupo de pessoas que tentava voltar para casa, entrei em uma agência bancária do shopping Center 3 para fugir do gás. Gás lançado, por sinal, diante de aplausos irônicos. Bombas foram lançadas ali mesmo, na porta da agência. O pânico foi geral.

Fosse você manifestante, transeunte ou jornalista a trabalho, não havia saída pela via nem pelas transversais, todas cercadas pelo Choque. A cada arremesso de bomba, alguém pedia por vinagre ou o oferecia –na imensa maioria das vezes, ofertas feitas ou recebidas por completos desconhecidos entre si. Recebi muito vinagre nas mãos e na blusa.

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Um jovem me deu a única garrafa d’água que tinha: o gás desidrata ao extremo e não era a primeira vez que eu o absorvera. “Toma, você precisa mais do que eu”. Difícil esquecer uma “palavra de ordem” dessas.

PM lança bombas de gás em repórteres e em ato contra violência

Quando tudo parecia caminhar para a dissolução completa, próximo às 22h e apesar das rondas ostensivas de PMs, uma leva de policiais atravessou a avenida a pé e se encaminhou com cassetes sobre manifestantes que estavam no vão do Masp. O repórter Vagner Magalhães foi agredido por golpes mesmo com a apresentação do crachá funcional e da câmera fotográfica.

Reunidos atrás de uma banca de jornais para nos proteger de balas de borracha, eu e outros quatro repórteres vimos PMs de moto avançando sobre pedestres na calçada com xingamentos. Quando olharam para nós, disse que éramos jornalistas em serviço e, segundos depois, responderam à apresentação com três bombas de gás contra nós.

Perto já das 22h40, um grupo veio em passeata com gritos e cartazes de “Sem violência”. Foram recebidos com mais balas de borracha e bombas. Os que vieram para o QG da imprensa, na banca que virou escudo, se deram mal: os PMs são mesmo bons de mira e nos acertaram novamente –desta vez, com a destreza da bomba que chegou por debaixo da banca.

Curioso é que, ao menos nas vezes em que presenciei, os ataques da PM vieram depois de xingamentos (“fascista”, o mais comum), aplausos irônicos e pedidos de não violência. Não vi as pedras e paus que marcaram protestos anteriores, muito menos qualquer coquetel molotov lançado –um capitão na praça do Patriarca me dissera que, com os detidos, havia desses coquetéis molotov, facas e maconha. Daí a necessidade da detenção.

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Protestos contra o aumento da tarifa do transporte coletivo200 fotos

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14.jun.2013 – O estudante de jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Caio Henrique Mattoso, 20, exibe bala de borracha usada pela polícia no confronto contra manifestantes durante protesto contra o aumento das tarifas do transporte coletivo na capital paulista na noite desta quinta-feira (13). O valor das passagens de ônibus, trem e metrô subiu de R$ 3 para R$ 3,20 neste mês Nico Nemer/Futura Press

População classifica ação policial como “catastrófica” e “assustadora”

Ao verem o bloco e a caneta na minha mão, fui parada por pedestres. Geralmente é o repórter quem os quer parar. “Moça, por favor, escreve aí: não sou manifestante, mas a polícia está sendo covarde e atirando a esmo. A PM tem que trabalhar, mas hoje passou dos limites e tratou todos que estavam por aqui como se fossem bandidos”, disse a bacharel em direito Carolina Barnes, 26. Ela contou que estava em uma escola na rua Frei Caneca, onde os alunos ficaram “trancados, muito apreensivos”.

ANÁLISES

“Por mais justo que seja baratear a tarifa, suas vantagens são questionáveis se for para ter menos, mais lentos, precários e superlotados serviços de transporte coletivo” Leia mais
“Tudo se resume em utilizar táticas e arsenal”não letal”para controlar de modo pacífico um distúrbio. O policial tem que ter antes de tudo disciplina, e o policial que quase foi linchado é um perfeito modelo disso” Leia mais
“Alguém acha que a realidade vai mudar apenas com protestos online ou cartas enviadas ao administrador público de plantão? Desculpe quem tem nojo de gente, mas protesto tem que mexer mesmo com a sociedade, senão não é protesto” Leia mais

“Eu era contra o protesto, mas de agora em diante faço questão de ficar a favor. Foi uma catástrofe a forma como vi os policiais agindo –vi sete deles prendendo até com corrente um manifestante. É preciso tudo isso? Cadê aquela PM pacífica que a gente viu na Parada Gay, ou virou guerra civil e eu não sei?”, indagou a jornalista Patrícia Clauren, 37, também de passagem pela região.

“Atirar só gera mais agressão. Fiquei com muito mais medo de bomba e tiro de borracha do que de qualquer ato de vandalismo que pudesse haver”, me relatou o cabeleireiro Magno Firmino, 31. Para o analista de qualidade Alessandro de Paula, 39, “medo” foi a palavra. “Até entendo o papel dos policiais, mas o que fizeram hoje aqui foi assustador.”

Vários outros relatos no mesmo sentido foram feitos a jornalistas que cobriam a manifestação, e vários dos participantes do ato nos pediam: “Mostrem aí o que a polícia está fazendo”. Acho que em parte é o que fica aqui.

E se o direito de ir e vir sempre é invocado em momentos de grandes manifestações, hoje me ficou nítido, mesmo durante o gás inalado (aliás, como mostrou a cápsula guardada por um morador atingido, gás vencido em 2010), que ele é muito fácil de ser transgredido não só por civis.

Depois de tais cenas estarrecedoras, de homens e mulheres pagos com dinheiro público para nos prover segurança e coibir violência agindo como agiram, espero de verdade que as declarações do ministro José Eduardo Cardozo, para quem “não é legítimo que se pratiquem atos de violência”, sejam amplificadamente interpretadas. Porque a sensação de impotência e desrespeito agride, não apenas, quem diria, a Carta Magna do país.

O PROTESTOS EM IMAGENS

  • Policial atinge cinegrafista com spray de pimenta
  • PM agride clientes de um bar na avenida Paulista
  • Policial atira bombas contra manifestantes
  • Manifestantes sentam em faixa de pedestre para interromper passagens de carro
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