Médicos são suspeitos de esquema que cobrou tratamento de mortos Tratamentos foram pagos, mas nunca realizados. Sessões de quimioterapia para pacientes que já tinham morrido foram cobradas.

Posted On 07/05/2013

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O Fantástico mostra mais um escândalo na saúde. Tratamentos que eram cobrados, mas nunca realizados. Sessões de quimioterapia em pacientes que já tinham morrido.

Médicos de dois hospitais públicos são os principais suspeitos de envolvimento com essas fraudes.

Veja os detalhes na reportagem de Mauricio Ferraz, Bruno Tavares e Nélio Brandão.

O pai de Rosângela e Rosinei cuidava de um pequeno bar na periferia de Campo Grande. Aos 64 anos, descobriu que tinha câncer. Morreu quatro meses depois.

“Dia 25 de janeiro de 2009”, revela Rosinei da Silva Nascimento Jacques, comerciante.

Mas o hospital cobrou por pelo menos três sessões de quimioterapia no mês seguinte.

“Já tinha falecido”, afirma Rosinei.

Um dos sete filhos do seu Antônio teve câncer no cérebro aos 17 anos. Morreu em 28 de novembro de 2009.

“Achamos que ele tinha falecido e acabou pro hospital, né?”, conta Antônio Moura da Silva, catador de material reciclável.

Não, não acabou pro hospital. O Sistema Único de Saúde, o SUS, pagou por um suposto tratamento do garoto um mês depois da morte dele.

Sessões de quimioterapia em pacientes que já tinham morrido. Cobrança por tratamento contra o câncer que nunca foi realizado. E o fechamento do setor de radioterapia de um hospital público para beneficiar clínicas particulares.

Todas essas irregularidades foram descobertas em uma investigação da Polícia Federal, do Ministério Público e da Controladoria-Geral da União na capital de Mato Grosso do Sul.

O cenário? O principal Hospital do Câncer do estado e o hospital ligado Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.

Entre os investigados, os médicos José Carlos Dorsa Vieira Pontes e Adalberto Siufi. Dorsa era diretor do Hospital Universitário, e Siufi dirigia o hospital do câncer.

Aos poucos, as investigações foram revelando uma forma cruel de desvio de dinheiro público no Hospital Universitário. O setor de radioterapia, um dos principais tratamentos de combate ao câncer, teria sido fechado de propósito, para que os pacientes fossem tratados pelas clínicas privadas do grupo investigado.

Com o atendimento interrompido no Hospital Universitário desde 2005, os pacientes com câncer passaram a ser encaminhados para o Hospital do Câncer.

Num relatório, a Polícia Federal afirma que se trata de um “conluio entre Adalberto Siufi e José Carlos Dorsa para manter desativada a radioterapia do Hospital Universitário para que os pacientes fossem encaminhados ao hospital do câncer e de lá para a clínica”, do próprio Adalberto.

“As responsabilidades públicas eram deixadas de lado em prol dos próprios ganhos, da própria empresa particular”, afirma Edgar Paulo Marcon, superintendente da PF-MS.

Em nota, o Ministério da Educação, responsável pelo Hospital Universitário, diz que a transferência dos serviços de oncologia foi decidida por uma comissão de gestores que reúne a Secretaria Estadual e as secretarias municipais de Saúde do estado.

Mas na terça-feira (30), enquanto o Fantástico gravava a reportagem, o setor de radioterapia da unidade voltou a funcionar. Os dois médicos investigados não comandam mais os hospitais.

Segundo a Controladoria-Geral da União, a clínica particular do doutor Adalberto recebeu quase metade do que o Hospital do Câncer gastou entre 2008 e 2011.

“Em quase R$ 25 milhões de contratos do hospital do câncer, temos R$ 11 milhões direcionados especificamente à empresa desse servidor”, ressalta Carlos Higino de Alencar, secretário-executivo da CGU.

Para o Ministério Público, o diretor do Hospital do Câncer jamais poderia ter contratado a própria clínica.

“A direção do hospital contratava empresas que pertenciam à diretoria do hospital. E isso por uma resolução feita pelo Ministério Público é proibido”, afirma Paula Volpe, promotora de justiça/MS.

O médico deixou a diretoria, mas continua atendendo os pacientes no hospital.

“Quem determinou quantidade de pacientes, quem determinou o número de valores repassados, diretamente com a empresa, que não fui eu. Eu não assino contrato, assino nada”, destaca Adalberto Siufi, cancerologista.

“O Ministério da Saúde chegou a detectar em 2009 e 2010, alguns procedimentos irregulares, exemplo: quimioterapia em pacientes que estavam mortos”, diz o repórter.

“Ocorre do paciente falecer e você não ficar sabendo. Ele mora no interior. Isso é desprezível em um universo grande como esse”, responde Adalberto.

Uma auditoria feita pelo Ministério da Saúde encontrou outros problemas. Descobriu, por exemplo, que o hospital cobrava por mais sessões de radioterapia do que realmente foram feitas.

O Fantástico entrevistou uma ex-funcionária, e segundo ela, os pacientes também não recebiam corretamente os remédios para combater o câncer.

“Os medicamentos eram prescritos em doses reduzidas e onde os pacientes assinavam as frequências e nem sempre era feitas as medicações. Então, eles tinham a frequência de que estavam ali, mas recebiam a medicação devida”, diz a ex-funcionária.

Muitas vezes, o remédio receitado era trocado. Mas não por ordem do médico. E sim pelo setor administrativo do hospital.

“O que a gente ouvia bastante na hora da compra de medicação é ‘o paciente está morrendo, não precisa fazer. Faz o soro que está bom’”, revela a ex-funcionária.

Uma conversa gravada pela Polícia Federal entre a farmacêutica Renata Burale e a então administradora do hospital, Betina Siufi, filha do doutor Adalberto, mostra como era decidida a medicação dos pacientes. A palavra final não era do médico.

Renata Burale: “Estou com uma prescrição aqui de um paciente do CTI, que a médica passou um antifúngico pra ele”.
Betina Siufi: “É caro pra cacete esse negócio. Nem f…, desculpa o termo. Tá?”.
Renata Burale: “Essa doutora Camila que passa essas coisas cabulosa. Na hora que eu vi o preço, eu falei ‘Não’”.

Encontramos a farmacêutica.

“Você falar que é ‘cabulosa’ a receita e falar ‘não’, sendo que nem médica você é”, diz o repórter.

“O que acontece. Quando chega uma prescrição que a gente acha que é fora do padrão, eu tenho que pedir autorização”, explica Renata Burale, farmacêutica do Hospital do Câncer.

Procurada, Betina Siufi não quis gravar entrevista. O pai falou por ela.

“O remédio caro ou barato, nunca importou. Tudo que foi de melhor pro paciente, sempre foi”, diz Adalberto Siufi.

“Vai se comprovar que não teve desvio nenhum, não teve nenhum abuso, não se cometeu nada de ilegal nisso aí”, afirma Rene Siufi, advogado de Adalberto.

Em julho do ano passado, o Fantástico já havia mostrado denúncias de mau atendimento no Hospital Universitário, quando José Carlos Dorsa ainda era o diretor.

As investigações mostram agora que, logo depois da entrevista, José Carlos Dorsa telefona para um amigo.

José Carlos Dorsa: “Duas horas de entrevista no Fantástico”.
Amigo: “Ai, meu Deus”.
José Carlos Dorsa: “Foi um horror, viu? Eu só falei coisa assim, boa. Apesar do cara ser grosseiro, agressivo, falei bem calmo, sem falar muito a minha opinião, sabe?”
Amigo: “Lógico, lógico”.
José Carlos Dorsa: “Bem falso, né?”

Em outra conversa, o doutor José Carlos fala com um médico. Eles armam um plano grave: discutem como alterar informações sobre a morte de uma paciente.

Médico: “Como é que vai descrever aquela válvula transcateter que abriu a mulher lá? Aquela que nós abrimos para fazer transapical, que morreu”
José Carlos Dorsa: “Como é que foi?”
Médico: “Fez transapical e furou o ventrículo. Põe isso?”
José Carlos Dorsa: “Não, não põe isso. Coloca que foi transapical e que evoluiu com disfunção ventricular e que nós colocamos em extracorpórea. Entendeu?”
Médico: “Mas nós não colocamos em extracorpórea”.
José Carlos Dorsa: “Eu sei, mas você vai falar por que abriu o tórax? Não pode falar que furou”

Procuramos três vezes o médico cardiologista José Carlos Dorsa. Fomos recebidos pelo assessor, Alcides Manuel do Nascimento.

“O senhor deixa seu telefone, eu te ligo”, diz o assessor.

O Fantástico não teve nenhum retorno. As escutas telefônicas mostram ainda uma tentativa de impedir as investigações no Hospital do Câncer.

No dia 23 de julho, o doutor Adalberto fala com a filha.

Adalberto Siufi: “Eu já marquei com a sua excelência, o governador. Ou ele dá um stop nisso ou nós vamos para o pau”

Dois dias depois, ele diz como foi a suposta conversa com o governador do estado, André Puccinelli.

Advogado: “Boa a conversa?”
Adalberto Siufi: “Boa, rapaz”.

E fala que o governador marcou um encontro entre ele e o procurador-geral de Justiça do estado do Mato Grosso do Sul.

Adalberto Siufi: “Marcou pra mim falar com o chefe, 8 horas amanhã”.

No dia seguinte, o médico fala novamente com a filha sobre a reunião.

Adalberto Siufi: “Foi nota 10. Ele foi muito aberto, muito legal, falou que vai resolver porque um pedido do governador ele não pode dizer não”.

O procurador-geral de Justiça confirma o encontro.

“Eles vieram dizer que estavam sendo perseguidos pela promotora, que eram inocentes, que nada daquilo que tava sendo veiculado era verdade, e pediam providências nesse sentido”, conta Humberto Brites, procurador-geral de Justiça do MS.

“O senhor costuma receber investigados aqui?”, pergunta o repórter.

“Costumo, não tenha dúvida. O que acontece, todo investigado, dependendo da dimensão da investigação, ele procura o procurador-geral no intuito de até tentar afastar a promotora de suas atividades”, responde Humberto Brites.

Mas diz que não houve interferência sobre o trabalho da promotora.

Em nota, o governo de Mato Grosso do Sul negou que o governador tenha se reunido ou intermediado reuniões com os dirigentes dos hospitais.

“O Ministério Público entende que o poder público tem que assumir o seu papel e oferecer um atendimento de qualidade para que a população seja bem atendida”, afirma Paula Volpe, promotora de justiça/MS.

Durante a entrevista com o doutor Adalberto, com os corredores do hospital lotados, sugerimos que ele atendesse primeiro aos pacientes.

Fantástico: “Vamos esperar o senhor atender”.
Adalberto Siufi: “Eu prefiro acabar”.
Fantástico: “Mas eu prefiro que o senhor atenda os pacientes”.
Adalberto Siufi: “Eles vão sofrer, mas deixa também. É bom que eles sintam um pouquinho. O residente atende”.

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